sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Dois corpos

Eram duas camas, uma ocupada por dois e outra assistindo ao espetáculo.
O corpo já estava quente, tão quente que esfriava a cada segundo que passava sem alteração no comportamento de noites como essa. Um ao lado do outro, o da esquerda intocável por um intervalo modesto de tempo para inércia, descanso, reflexão. A mão que passeava pela própria barriga, sentindo o ar entrar aos pulmões e elevá-la para cima e para baixo, como ambos os corpos fizeram alguns minutos atrás. Um ritmo inigualável e harmônico, incansável e molhado. Além de quente, sentia-se o suor derramar de um para o outro, como na troca de uma substancia química de relação espontânea. Um odor insinuante pairava sobre o quarto escuro, quase invisível, que guiavam as mãos cegas por caminhos nunca encontrados até então. Perderam-se no caminho, ou jamais queriam voltar ao inicio. Dois dedos desenhavam circunferências nas entocas, hora rápido, hora devagar, hora adentro. Sempre a gosto do parceiro. Certidão de companheirismo. O corpo a direita flutuava longe. Como se nada feito ali tivesse acontecido. A pausa era para a discussão, o nome de um terceiro circulava a história. Atormentava, para melhor esclarecer. Perguntas, silêncio. O da direita acusava, apontava, punia e castigava com chantagens emocionais não tão baratas assim. Cujas palavras roubaram da noite o seu encanto quase que por completo. O da esquerda ouvia, sentia, mas não ousava falar, quem sabe, talvez não tivesse realmente nada a ser dito. As costas se encontraram cada qual por uma razão. Ficaram ali mais alguns minutos em silêncio. Uma piada solta pra romper o clima pesado não foi tão eficiente. A solução era dormir, ao menos nos sonhos daria certo. Talvez alguém quisesse chorar, ou gritar, bater, empurrar, mas nada foi feito. A porta continuava fechada, o escuro também, o silêncio deu lugar a outros sons, mas confortáveis. Os dois corpos outra vez se atacaram, dessa vez um minuto foi necessário para resgatar todo o fogo que esquentavam ambas as almas carentes por atenção e abrigo. Ocorreu um atrito mais violento, machucando mas embaixo. Litros eram preparados pelos órgãos para expulsa-los dentro um do outro. E assim, sentir o gosto do prazer na língua: O da reconciliação. Os dois não se encontravam mais em posições paralelas. O da direita estava por baixo e o da esquerda por cima, cruzando-se entre si e trabalhando, dirigindo a 120 km/h quase sem ar, fatigado do segundo tempo.
Termina a brincadeira. Abrem a porta, já era dia, calam as bocas e um deles adormece enquanto o segundo observa-o sonhar. Imaginando e modelando uma proxima vez. Quem sabe na mesma cama, quem sabe na proxima semana.

3 comentários:

  1. Este comentário foi removido pelo autor.

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  2. Nossa.... isso remete a uma experiência sua?
    Lindo e curioso...
    Chegou a incitar-me algum desejo, no Plural =)

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  3. Seus textos são emocionantes!
    Como faz pra escrever assim?
    Adoro o que escreves, nem tudo, por que creio que isso seja impossível, mas a maioria das coisas eu adoro.
    Continue assim, querida.
    Parabéns.

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